quinta-feira, 29 de julho de 2010



briga

O que eu quero são as experiências completas. As imagens penetrando minhas retinas como diversas drogas intravenosas, os sons reverberando não só dentro de meus ouvidos, mas dentro de mim, como se eu inteiro fosse uma caixa acústica, pronto para vibrar com cada Si Bemol e Ré Sustenido.
O que eu quero é me livrar de tudo o que me limita. Me limitam as telas, os vidros, as lentes, a carne, o dinheiro, os valores, os sentimentos, meus e dos outros, as palavras, a comunicação, a necessidade da comunicação.
E naqueles dois segundos, quando consigo de fato me livrar de tudo isso, quando não há carne ou comunicação envolvida, quando as informações me atingem como golpes no rosto, sem que eu tenha a chance de reagir ou de sequer pensar em reagir, naqueles dois segundos eu sou inteiro.
Não tente me enganar com meias palavras, meias imagens, meias velhas ou novas.
Não tente me tocar com meia pele, meia vontade, meia certeza.
Eu quero o preto no branco, e todos os tons de cinza.
Eu quero o azul, vermelho e amarelo que me ensinaram construir o arco-íris inteiro.
Eu quero as tardes tediosas de domingo e as sextas-feiras mais caóticas e cansativas e matadoras.
Eu quero morrer todos os dias, e renascer junto com o sol nos dias seguintes.
E se eu morrer de fato, quero que seja intenso, e que ninguem perca seu tempo lamentando assunto tão sem graça e inevitável.
Eu quero subir escadas correndo e tropeçar nos degraus pelo caminho.
Eu quero subir num ringue de luta livre com a Vida inteira no outro canto.
E quando ela olhar pra mim, imensa e ameaçadora, eu quero olhar de volta com toda a minha insignificância arrogante e dizer: "Vem pro pau."
E se eu começasse a sangrar pelo supercílio aberto, pelo nariz quebrado ou pela boca inchada, espero que do outro lado das cordas eu tenha o acaso pra me substituir por alguns minutos enquanto eu cuspo água no chão e faço cara de mau.
Se eu perder, vou perder com um sorriso aberto e sem dentes, até que ele se apague do meu rosto como eu hei de apagar da memória do mundo.
Se eu ganhar, vou ganhar sem a menor modéstia e com a imensa arrogância que minha pouca idade ainda me permite.



escrito por Gabriel Caropreso às 19:26


2 Comentários


domingo, 4 de julho de 2010



solidão

Eu ganhei no bingo um pernoite no motel. Eu queria mesmo uma televisão de plasma.


escrito por Gabriel Caropreso às 09:21


0 Comentários