quinta-feira, 5 de novembro de 2009



noites.

Roberto Alves, 52 anos, acende um cigarro de filtro marrom, carrega uma Taurus Calibre 38 com cinco balas. Encosta o cano gelado na têmpora direita. Contrai os músculos do indicador direito.
Fernando Oliveira, 20 anos, prepara uma fileira com vinte comprimidos coloridos. Observa a garrafa de cachaça vazia enquanto engole um a um, ajudado pelos goles do último copo. A saliva espumante cobre o peito, os espasmos consomem o corpo, o corpo cobre o chão da cozinha de azulejos cor de pele.
Renata Dimenstein, 26 anos, aspira a última linha de pó branco de uma mesa de tampo de madeira escura. Observa as luzes acesas no prédio em frente. A terceira janela da esquerda para a direita no quarto andar, a primeira no décimo primeiro e a segunda no décimo quinto. Sobe no parapeito e se inclina para frente até perder o equilíbrio. Independente do vento ensurdecedor que luta contra, ela finalmente atinge a calçada suja.
Otávio Granato, 32 anos, ouve os últimos acordes de um disco de jazz de 1954 numa antiga vitrola bege e vermelha. Salta de uma cadeira para a suspensão no ar, pelo pescoço, por uma corda improvisada com lençóis rasgados. O formigamento das extremidades acaba junto com toda a consciência.
Um carro ou outro atravessa a avenida furando os semáforos.
As primeiras gotas da garoa brilham no asfalto.
O resto do mundo adormecido.




escrito por Gabriel Caropreso às 22:59


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