quarta-feira, 2 de julho de 2008



boom.

Vem como um tiro no peito, e eu aceito. Deixo que o aço e o chumbo naveguem pela minha carne, pelos meus músculos, por todos os tecidos internos. Parte dele fica em mim, como prova de um ato de humilhação. Parte sai pelas minhas costas e se espalha pelo chão, inerte.

Inerte como eu, estirado no chão, impotente, observando as partes de meu corpo que pousaram a metros de distância e me despedindo delas, me despedindo de minha consciência e de minha existência. Contando os segundos calmamente, esperando meu sangue se espalhar pelo asfalto, não dando atenção para os gritos de desespero.
Não me desespero, espero as lágrimas rolarem por meu rosto conformado e aceito o que vem, e o que vai.

Vou em paz.

Meus sentidos explodem de repente, como se encontrassem com o mundo pela primeira vez, e eu atinjo um êxtase de emoções amplificadas à máxima potência. Tudo o que eu já conheço é novo, todos os sons e imagens, todas as cores e texturas, todo o pensamento se expande.
Vivo segundos em um orgasmo eterno, contemplo a eternidade, compreendo toda a verdade óbvia que ainda não tivera a chance de conhecer.
E volto, arrastado e contrariado, à realidade.
E a realidade é como a experiência de assistir a uma televisão antiga. A imagem é bidimensional, embassada e o som é parecido com uma guerra nuclear da perspectiva de um submarino.

Imploro por outro tiro, outra oportunidade, imploro outra chance de desistir.
Meu instinto não permite, minha natureza resiste.
E então me desespero pela primeira vez, gritando com a voz que não tenho mais, me contorcendo entre lençóis manchados, chorando.
Durmo.

A vida continua, sem cor.

E eu aceito o que vem, deixando de ir.


escrito por Gabriel Caropreso às 13:41


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