terça-feira, 15 de julho de 2008



777

Era um bar ou um café escuro. Decorado em tons de madeira, azul e vermelho. Frequentado por todo tipo de gente estranha envolvida com ocultismo, magia e essas coisas que não deveriam funcionar mas funcionam.

Eu andava por entre as mesas, me desviando dos garçons que usavam turbantes roxos, e aventais escuros e manchados. Nas mesas, a gente estranha brincava com incensos, velas, pedras e tecidos, recitando palavras em línguas estranhas, talvez imaginárias.

Encontrei a cigana em uma mesa redonda e grande. Várias xícaras e pratos vazios e sujos descansavam sobre a mesa, indicando a quantidade de pessoas que passara por lá naquele dia. Ela vestia tecidos caros e coloridos, extravagantes, tinha os cabelos negros e uma maquiagem carregada nos olhos. Era bela, porém, de uma maneira que intimidava. Fumava um cigarro e perguntava entre a fumaça quais eram minhas intenções naquele lugar. Eu amava, e não deveria, essas eram minhas intenções.

Ela ria uma risada alta e muito bem ensaiada, com um olhar de pena tão bem ensaiado quanto. Minha ingenuidade não é novidade pra mim, o que é uma contradição, talvez.

Então ela embaralhou aquelas cartas mágicas e as depositou na mesa, escrevendo minha história em cima da mesa, como quem rabisca um diário à tinta. O que estava ali não poderia ser apagado. Três setes. Ouros, paus e espadas. Ela sorriu, e eu sorri, nervoso. "Afaste-se dela, menino." Ela disse, como se me desse uma ordem, ou um conselho importantíssimo, algo que mudaria minha vida. Era para isso que eu estava lá, afinal.

Uma bruxa velha nos observava por detrás de uma cortina vermelha que cobria a entrada de algum lugar que eu não queria conhecer. Seu olhar me dilacerava por dentro, eu sentia seu ódio em minha nuca.

"É tão ruim assim?" perguntei, com minha paixão de criança congelando minhas vísceras.

"Três setes" ela disse, e mais nada.

A sala sumiu, a cigana, as xícaras, a parede de madeira, tudo desapareceu num furacão. Abri os olhos, aflito. Três setes ilustravam minha manhã.


escrito por Gabriel Caropreso às 09:31


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