quarta-feira, 23 de julho de 2008
convocação
Caros amigos,
tragam pólvora e fogo
tragam nitroglicerina
morteiros, granadas
dinamites e todos os etecéteras
tragam toda a munição, toneladas de aço
tragam lâminas e bastões de baseball
coquetéis molotov e garrafas quebradas
tragam seus punhos e preparem-se para sujá-los
tragam todo esse ódio
porque hoje nós vamos matar todo o mundo.
escrito por Gabriel Caropreso às 22:07
terça-feira, 15 de julho de 2008
777
Era um bar ou um café escuro. Decorado em tons de madeira, azul e vermelho. Frequentado por todo tipo de gente estranha envolvida com ocultismo, magia e essas coisas que não deveriam funcionar mas funcionam.
Eu andava por entre as mesas, me desviando dos garçons que usavam turbantes roxos, e aventais escuros e manchados. Nas mesas, a gente estranha brincava com incensos, velas, pedras e tecidos, recitando palavras em línguas estranhas, talvez imaginárias.
Encontrei a cigana em uma mesa redonda e grande. Várias xícaras e pratos vazios e sujos descansavam sobre a mesa, indicando a quantidade de pessoas que passara por lá naquele dia. Ela vestia tecidos caros e coloridos, extravagantes, tinha os cabelos negros e uma maquiagem carregada nos olhos. Era bela, porém, de uma maneira que intimidava. Fumava um cigarro e perguntava entre a fumaça quais eram minhas intenções naquele lugar. Eu amava, e não deveria, essas eram minhas intenções.
Ela ria uma risada alta e muito bem ensaiada, com um olhar de pena tão bem ensaiado quanto. Minha ingenuidade não é novidade pra mim, o que é uma contradição, talvez.
Então ela embaralhou aquelas cartas mágicas e as depositou na mesa, escrevendo minha história em cima da mesa, como quem rabisca um diário à tinta. O que estava ali não poderia ser apagado. Três setes. Ouros, paus e espadas. Ela sorriu, e eu sorri, nervoso. "Afaste-se dela, menino." Ela disse, como se me desse uma ordem, ou um conselho importantíssimo, algo que mudaria minha vida. Era para isso que eu estava lá, afinal.
Uma bruxa velha nos observava por detrás de uma cortina vermelha que cobria a entrada de algum lugar que eu não queria conhecer. Seu olhar me dilacerava por dentro, eu sentia seu ódio em minha nuca.
"É tão ruim assim?" perguntei, com minha paixão de criança congelando minhas vísceras.
"Três setes" ela disse, e mais nada.
A sala sumiu, a cigana, as xícaras, a parede de madeira, tudo desapareceu num furacão. Abri os olhos, aflito. Três setes ilustravam minha manhã.
escrito por Gabriel Caropreso às 09:31
quarta-feira, 2 de julho de 2008
boom.
Vem como um tiro no peito, e eu aceito. Deixo que o aço e o chumbo naveguem pela minha carne, pelos meus músculos, por todos os tecidos internos. Parte dele fica em mim, como prova de um ato de humilhação. Parte sai pelas minhas costas e se espalha pelo chão, inerte.
Inerte como eu, estirado no chão, impotente, observando as partes de meu corpo que pousaram a metros de distância e me despedindo delas, me despedindo de minha consciência e de minha existência. Contando os segundos calmamente, esperando meu sangue se espalhar pelo asfalto, não dando atenção para os gritos de desespero.
Não me desespero, espero as lágrimas rolarem por meu rosto conformado e aceito o que vem, e o que vai.
Vou em paz.
Meus sentidos explodem de repente, como se encontrassem com o mundo pela primeira vez, e eu atinjo um êxtase de emoções amplificadas à máxima potência. Tudo o que eu já conheço é novo, todos os sons e imagens, todas as cores e texturas, todo o pensamento se expande.
Vivo segundos em um orgasmo eterno, contemplo a eternidade, compreendo toda a verdade óbvia que ainda não tivera a chance de conhecer.
E volto, arrastado e contrariado, à realidade.
E a realidade é como a experiência de assistir a uma televisão antiga. A imagem é bidimensional, embassada e o som é parecido com uma guerra nuclear da perspectiva de um submarino.
Imploro por outro tiro, outra oportunidade, imploro outra chance de desistir.
Meu instinto não permite, minha natureza resiste.
E então me desespero pela primeira vez, gritando com a voz que não tenho mais, me contorcendo entre lençóis manchados, chorando.
Durmo.
A vida continua, sem cor.
E eu aceito o que vem, deixando de ir.
escrito por Gabriel Caropreso às 13:41