domingo, 1 de junho de 2008



prestes.

Esse texto é sobre uma idéia. Não é uma idéia original. É uma idéia boa.

Gabriel pegou a última mala que faltava, encaixou no porta malas do Fusca 74 que fora o resultado de alguns meses de trabalho, fechou o zíper de seu casaco até quase o queixo e olhou para o portão verde, que ele enxergava laranja. Entrou pela última vez na casa antes de partir, passou pelo corredor do quintal e subiu as escadas. Esperou que seu irmão o notasse. Umas caixas de som caras pra cacete tocavam um metalcore frenético, e Pedro voltava algumas frases, terminando alguma edição ou algo assim. Assim que o bumbo duplo e as guitarras distorcidas pararam, Pedro notou Gabriel na porta e sorriu.
- Você tá indo agora?
- Tô.
- Come umas argentinas por mim.
- Quem sabe umas peruanas.
Gabriel sorriu e abraçou seu irmão, um abraço de irmão de sangue, daqueles que grita silenciosamente um "eu te amo" bem macho.
Desceu as escadas e entrou pela cozinha, Luiz cozinhava alguma coisa mirabolante, pois era domingo.
- Tô indo pai.
Luiz abriu meio-sorriso.
- É foda criar um moleque vinte anos pra ver ele virar palhaço.
- Coisas da vida, mano. Estrala minhas costas?
O pai deu um abraço no filho, levantando-o ligeiramente do chão.
- Te ligo de algum lugar - Gabriel disse.
- Tá bom. - o pai respondeu, com aquele tom de "te amo mas não sei como expressar", que ele usava com frequência.
Gabriel saiu pela porta da cozinha e subiu as escadas para encontrar sua mãe suspirando, como se aquele suspiro fizesse com que ele mudasse de idéia. Ele não mudou, claro.
- Vai com Deus, filho, e me liga de vez em quando pra matar as saudades.
- Pode deixar.
Outro abraço longo, e umas duas lágrimas de saudade antecipada.
Só faltava um quarto, ele entrou devagar e encontrou Giulia terminando o dever de casa. Física.
- Me ajuda?- ela pergunta, rindo.
- Perdeu, prayboy, tenho que ir...
- Te amo, viu gabilas?
- Eu sei - ele sorri mais uma vez, dá uma mordida e um abraço de despedida, e desce as escadas para uma nova vida. Buzina umas vezes saindo com o carro, e põe uma fita cassete gravada especialmente pra ocasião. Chet Baker, o branco mais preto da história.
Parou na frente do prédio na rua das Baunilhas e fez uma ligação.

O celular de Beção tocou, ele atendeu um "já desço" e desligou.
Silvana esperava seu beijo de despedida, quase conformada. Ela não podia impedi-lo de viver a vida. E era por pouco tempo.
- Dê, me ajuda a levar as malas?
- Vamo aí.- Denis pegou a barraca e uma das malas grandes, Beção pegou a mala onde estavam todos os malabares e a outra mala grande e eles desceram.
Elevador.
- Terminei o Resident 7.
- Bacana.
- Agora eu vou tentar abrir o Leon com roupa de drag queen.
- Pode crê.
Térreo. O portãozinho velho de ferro, as malas dentro do carro, o iPod no bolso, a câmera na mão.
- E aí Dê, tudo bem?
- Tudo bão, e com você?
- Tudo bem.
- Juízo vocês dois hein?
- Pode deixar. Dá um beijo na sua mãe, fala que eu devolvo o filho dela daqui a alguns meses.

O Fusca parte, deixando o passado pra trás.
E nossas vidas passam a ser vistas por nós como antes e depois daquele momento.

- Como eu pego a marginal mesmo?
- Mano, me deixa dirigir.
- Nem fodendo.


escrito por Gabriel Caropreso às 20:51


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