quinta-feira, 22 de maio de 2008



viagem

Aquele sujeito estranho vestindo umas roupas largas e um tanto surradas entrou pela porta da frente, me deu um dinheiro em moedas e foi para a porta de trás, dormir.
Naquele horário, a viagem daria duas horas ou mais para que ele descansasse sua alma que, dava pra sentir, estava um tanto cansada.
O Sol acabava de se pôr num céu cinza alaranjado, tornando-o preto e sem estrelas e eu esfregava meus olhos com mãos sujas de dinheiro e gente. Era a última viagem do meu turno, e eu esperava ansioso por um gole de qualquer coisa muito gelada e pela fumaça de alcatrão que era tão bem-vinda nos meus pulmões.
Tudo era negro naquela noite, mais do que o comum, e um frio inesperado invadia aquele ônibus de uma maneira terrível. Apertei meu casaco alguns botões e procurei me distrair com as placas que começavam a ser escassas naquela cidade, deixando algum falso respiro visual, povoado de paredes mal pintadas e sujeira por todos os cantos.
Comecei a me sentir mal, um tipo de tristeza inexplicável, pontuada com náuseas repentinas e uma dor de cabeça terrível, que ia e voltava. Era estranho, mas nos intervalos eu sentia uma paz absoluta, algo impossível naquele trecho da avenida e naquele horário do dia.
O resto da viagem foi torturante, os passageiros eram como fantasmas sem face, que me entregavam um dinheiro sujo e vomitavam palavras em meu rosto, para que eu lhes devolvesse o troco, eu nunca quis tão desesperadamente sair de algum lugar quanto quis ali.
A viagem terminou, todos os passageiros desceram menos um.
Fui acordá-lo, sem êxito. Sentei-me ao seu lado. Teria sido um rapaz bonito, se não fosse tão maltratado durante sua curta vida.
Tirei meu esperado cigarro do maço e o acendi com um palito de fósforo barato.
Liguei para a ambulância e esperei, sentado ali, lutando contra o que quer que seja que sugava minhas energias.
As sirenes não demoraram.
Nunca mais tive tanto sossego quanto naquele banco, durante aqueles vários segundos.


escrito por Gabriel Caropreso às 16:50


2 Comentários