sábado, 31 de maio de 2008



choveu!

Trabalhava num circo onde, quando chovia, não havia espetáculo.
E estava chovendo.
Então, ela se escondia debaixo de cobertores e brincava com fantoches de meia, brincava com as lágrimas que enchiam seus olhos quando bocejava, brincava com a luz, e a luz brincava com ela. A luz propõe diversas brincadeiras pra quem está disposto a prestar atenção, quase ninguém presta, porém.
Algumas bolas coloridas rolavam com vida própria pelo chão frágil do trailer, perdendo-se e mudando de idéia pelo caminho, e tudo ficava bem.
No acampamento, cada um fazia o que uma família comum itinerante com 4 malabaristas, 3 trapezistas e uma fantasia de "Monga, a mulher macaco" faria, o que é isso não posso imaginar.
Um pai irritado tentava fazer o possível pra se concentrar em um novo e mirabolante número de ilusinismo, enquanto seu filho hiperativo, famoso por fazer malabarismo com sete frigideiras aos oito anos procurava os objetos mais perigosos que pudesse encontrar para pregar uma peça em alguém, enchendo o saco de todo mundo no processo.
O patriarca da família bebia vinho e assistia a algum programa terrível de sábado à tarde na televisão gratuita, sozinho em um trailer escuro muito bem iluminado pelo sol.
A chuva fazia bem de vez em quando.


escrito por Gabriel Caropreso às 19:03


1 Comentários


sexta-feira, 23 de maio de 2008



coisas que a gente faz na vida



Setembro, 2007





Maio, 2008


escrito por Gabriel Caropreso às 21:11


1 Comentários


quinta-feira, 22 de maio de 2008



viagem

Aquele sujeito estranho vestindo umas roupas largas e um tanto surradas entrou pela porta da frente, me deu um dinheiro em moedas e foi para a porta de trás, dormir.
Naquele horário, a viagem daria duas horas ou mais para que ele descansasse sua alma que, dava pra sentir, estava um tanto cansada.
O Sol acabava de se pôr num céu cinza alaranjado, tornando-o preto e sem estrelas e eu esfregava meus olhos com mãos sujas de dinheiro e gente. Era a última viagem do meu turno, e eu esperava ansioso por um gole de qualquer coisa muito gelada e pela fumaça de alcatrão que era tão bem-vinda nos meus pulmões.
Tudo era negro naquela noite, mais do que o comum, e um frio inesperado invadia aquele ônibus de uma maneira terrível. Apertei meu casaco alguns botões e procurei me distrair com as placas que começavam a ser escassas naquela cidade, deixando algum falso respiro visual, povoado de paredes mal pintadas e sujeira por todos os cantos.
Comecei a me sentir mal, um tipo de tristeza inexplicável, pontuada com náuseas repentinas e uma dor de cabeça terrível, que ia e voltava. Era estranho, mas nos intervalos eu sentia uma paz absoluta, algo impossível naquele trecho da avenida e naquele horário do dia.
O resto da viagem foi torturante, os passageiros eram como fantasmas sem face, que me entregavam um dinheiro sujo e vomitavam palavras em meu rosto, para que eu lhes devolvesse o troco, eu nunca quis tão desesperadamente sair de algum lugar quanto quis ali.
A viagem terminou, todos os passageiros desceram menos um.
Fui acordá-lo, sem êxito. Sentei-me ao seu lado. Teria sido um rapaz bonito, se não fosse tão maltratado durante sua curta vida.
Tirei meu esperado cigarro do maço e o acendi com um palito de fósforo barato.
Liguei para a ambulância e esperei, sentado ali, lutando contra o que quer que seja que sugava minhas energias.
As sirenes não demoraram.
Nunca mais tive tanto sossego quanto naquele banco, durante aqueles vários segundos.


escrito por Gabriel Caropreso às 16:50


2 Comentários


segunda-feira, 5 de maio de 2008



brincadeira

Domingo à tarde.
Depois de alguns tiros.

Baqueta, chão.
Baqueta, porta.
Palmas, baqueta, porta, baqueta, chão.
Aros, porta, aros, parede, baquetas, chão.
Porta.
Silêncio.
Baqueta, chão, cama.
Panelas, colher, tampa.
Pau, tampa, baqueta, chão, baqueta, parede, aros, parede, armário, baquetas, parede, tampa, pau, colher, tampa, parede.
Claves, escada, corrimão, claves, degraus, baquetas, corrimão, baquetas, aros, chão, corrimão, claves.

Latas, pente. Garrafas.
Teto, garrafas, frascos, corrimão, baquetas.

Silêncio.


escrito por Gabriel Caropreso às 08:11


0 Comentários