terça-feira, 1 de abril de 2008
pulso
Ele a encontrou quando não havia mais sol, o bar fechado, uma lâmpada de um triste poste de luz tentava iluminar toda a rua. A garoa fina tornava tudo mais difícil de enxergar, deixando que a imaginação de cada pedestre completasse as lacunas de seus campos de visão.
Ela não se importava muito com nada, mas alguma parte escondida de seu organismo desgastado por antidepressivos e doses exageradas de álcool entendia o que aquele homem escondido atrás de um casaco alguns números maior significava.
Ele se importava demais com tudo, portanto se incomodou com a maquiagem pesada que escorria dos olhos dela, com seu cigarro que lutava para permanecer aceso, com a teimosia com que ela ficava sentada esperando observando a água escorrer lentamente pela calçada. Se incomodava pelo jeito com que ela desconsiderava tudo que o acaso preparava metódicamente para acontecer ao redor dela, como que esperando alguma reação. Ela só se incomodava com a árvore que deixava de ser idêntica ao retrato de Anthony Murphy por causa de apenas um galho torto. Ela considerou desentortar o galho, mas decidiu não se dar ao trabalho.
Ele abriu seu guarda-chuva, e foi até ela.
- Esse é só o começo - ela disse
- É?
- É.
- O começo de quê?
- Você não ia querer estragar a surpresa não é?
- De maneira alguma.
Eles ficaram ali, ao lado do poste de luz, completando as lacunas que faltavam do quadro em movimento que se transformava em suas retinas a cada segundo, colorindo de tons de cinza, âmbar e preto uma tela que se formaria sozinha com talvez um pouco mais de dificuldade. Não dando a mínima atenção a Anthony Murphy, que tentava reposicionar o galho corretamente.
Era só o começo mesmo, não havia motivos para pressa.
escrito por Gabriel Caropreso às 07:43