quarta-feira, 30 de abril de 2008



inspiração

Me sentei na cadeira em frente àquela velha escrivaninha de madeira grossa, depositei meu cigarro pela metade no cinzeiro empoeirado que mudara de cor durante todos aqueles anos de uso. Cinzeiros nunca se estragam, só se transformam, é uma teoria que eu venho desenvolvendo.
Quando eu não sei o que eu escrever eu leio, dá tudo na mesma. Todas as idéias já foram pensadas e trabalhadas, em sonho ou realidade, não importa. Tudo o que é escrito teve de ser pensado antes, e tudo o que foi pensado se sabe. Tudo se sabe. Escrever é apenas um longo exercício de memória.
E ler, é se lembrar do que já pensamos ou teríamos pensado de qualquer maneira. Tudo que lemos foi escrito por nós em outra ocasião. Se não foi poderia ter sido.
Faz muito sentido pra mim.

As gotas escorriam pelo lado de fora de um copo meio-vazio de uísque com três pedras solitárias de gelo, e eu decifrava tipos como se pintasse um quadro. O único quadro que eu possuía me fitava com certa curiosidade, como se quisesse saber o que aquelas páginas meio amarelas me diziam. Então eu lia alto, para me lembrar que eu tinha voz, e para satisfazer a curiosidade de uma alma presa em tinta óleo.


A vida pode ser muito simples, e deveras divertida, quando se tem boas páginas em branco, garrafas coloridas com teores alcoólicos diferentes e algumas notas musicais compondo uma harmonia qualquer.
Proponho um brinde a todos nós.
A todos aqueles que pensam.
A todos aqueles que criam.
E a tudo a que essa criação se deve.


escrito por Gabriel Caropreso às 13:12


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terça-feira, 1 de abril de 2008



pulso

Ele a encontrou quando não havia mais sol, o bar fechado, uma lâmpada de um triste poste de luz tentava iluminar toda a rua. A garoa fina tornava tudo mais difícil de enxergar, deixando que a imaginação de cada pedestre completasse as lacunas de seus campos de visão.
Ela não se importava muito com nada, mas alguma parte escondida de seu organismo desgastado por antidepressivos e doses exageradas de álcool entendia o que aquele homem escondido atrás de um casaco alguns números maior significava.
Ele se importava demais com tudo, portanto se incomodou com a maquiagem pesada que escorria dos olhos dela, com seu cigarro que lutava para permanecer aceso, com a teimosia com que ela ficava sentada esperando observando a água escorrer lentamente pela calçada. Se incomodava pelo jeito com que ela desconsiderava tudo que o acaso preparava metódicamente para acontecer ao redor dela, como que esperando alguma reação. Ela só se incomodava com a árvore que deixava de ser idêntica ao retrato de Anthony Murphy por causa de apenas um galho torto. Ela considerou desentortar o galho, mas decidiu não se dar ao trabalho.
Ele abriu seu guarda-chuva, e foi até ela.
- Esse é só o começo - ela disse
- É?
- É.
- O começo de quê?
- Você não ia querer estragar a surpresa não é?
- De maneira alguma.
Eles ficaram ali, ao lado do poste de luz, completando as lacunas que faltavam do quadro em movimento que se transformava em suas retinas a cada segundo, colorindo de tons de cinza, âmbar e preto uma tela que se formaria sozinha com talvez um pouco mais de dificuldade. Não dando a mínima atenção a Anthony Murphy, que tentava reposicionar o galho corretamente.
Era só o começo mesmo, não havia motivos para pressa.


escrito por Gabriel Caropreso às 07:43


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