terça-feira, 4 de março de 2008
325, Augusta
O transporte público já estava prestes a deixar seus funcionários descansarem. Nessas cidades, o transporte público é um organismo vivo. Mas naquela rua que vai do centro ao luxo, em uma sala escura de verdade, acontecia algo inexplicável. E esta é uma afirmação pretensiosa, pois tentarei explicar ou descrever o que quer que seja que deixava todos tão inquietos.
Haviam umas 30 pessoas distribuídas em cadeiras confortáveis e bancos de plástico barato. Toda a existência já havia alcançado seu ápice e protagonizado a cena, e deixara de existir num curto espaço de tempo.
Agora, três homens experimentavam sons, sem se importar muito com a reação daquela platéia única, que embora fingisse grande eloquência nesses assuntos modernos, não deixava de tampar os ouvidos de vez em quando.
Uma microcâmera desfocava na parede fragmentos de máquinas, que haviam sido transformados em uma versão beta de qualquer coisa que emitisse sons enquanto acendia luzes aleatórias.
À minha volta, as pessoas se drogavam com aquelas frequências inusitadas, rindo alto, ou fechando os olhos para deixar que as imagens se espalhassem pela retina com mais conforto.
O homem barbudo ria, o homem careca fazia o possível para não ir embora, e acabou cedendo após algum tempo.
Um super-herói japonês observava tudo, esperando o momento certo para convocar seu robô gigante, como é de praxe naquela terra de olhos puxados e cabelos lisos.
As gigantes serpentes de metal estavam prestes a se deixar tomar pelo sono, para um descanso de pouco mais de três horas, e percebi que era hora de partir.
Deixei minhas reverências no chão, caso alguém se importasse, e deixei aquelas frequências na memória recente, para fácil acesso na viagem de volta.
Aconteceu no centro da cidade.
escrito por Gabriel Caropreso às 12:31