terça-feira, 19 de fevereiro de 2008



nojo

-Eu nunca disse isso, mas eu te amo, sua nojenta.
Ela sorriu durante alguns dias, enquanto adiava o dia em que finalmente o encontraria e responderia aquele comentário tão insensato. Ela detestava admitir, mas estava mais leve do que nunca.
Sentava-se no sofá da sala, aquele com a estampa colorida e fora de moda, e comia pipocas enquanto ouvis o melhor da sua coleção virtual de jazz.
Hoje em dia é tudo virtual, ela não só se conforma, como adora pensar nisso. Todo o conhecimento do mundo está ali disponível, sempre que ela precisar, mesmo que não precise. Só precisava daquelas palavras tão contraditórias.
No amor, é tudo contraditório. Por isso que ela odiava tanta gente.
Que insensatez, o amor.
Ela adorava as saudades, o frio na barriga e tudo mais. Não importa quantas velas você assopre na vida, o frio na barriga vai sempre te acompanhar.
"Eu te amo, sua nojenta."
Insensato gostar tanto dessas palavras.


escrito por Gabriel Caropreso às 18:20


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domingo, 10 de fevereiro de 2008



o meio.

Toda quarta-feira. Pessoas conversam assuntos sem importância em loops infinitos, enquanto aqueles quatro amigos tocam seus instrumentos em uma louca improvisação descompassada que dura séculos. Ali ninguém tem hora para voltar, já que não é mais possível voltar.
O garçom insiste em trazer "Uma breve história do tempo" quando pedimos os cardápios, e os clientes costumeiros folheiam menus de outros lugares enquanto movem suas colheres despreocupadamente em xícaras de chá pela metade.
Nós passamos algum tempo tentando entender o lugar, mas acabamos desistindo e curtindo o resto da noite, que havia acabado de terminar e começar novamente, como qualquer professor de etiqueta nos aconselharia.
Não que não houvessem professores de etiqueta, mas eles estavam preocupados demais apostando na corrida de castores, tradicional evento anual.
Tiramos férias, e nos lembramos mais uma vez de como seria nossa vida em outras ocasiões.
Não tão boa assim.


escrito por Gabriel Caropreso às 21:35


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